14 de dezembro de 2011
Alegria
7 de dezembro de 2011
Hoje: 100 anos de Jorge Cooper
Deixo-me me levar hoje pelo ritmo da memória. Recupero imagens belas e comoventes de tardes de sábado na casa de Jorge Cooper. Conversas, leituras de poemas, o riso fácil do poeta, o olhar vivo para tudo que falávamos ou mostrávamos a ele, o contraste entre a imobilidade de parte do corpo e a agitação das mãos longas, quando dizia algo. Alguém que manteve até o fim o entusiasmo pela vida, a disponibilidade para o diálogo. Saudades e alegria de ter vivido horas em tão rara companhia, em 1990, 1991, em sua casa, na qual ele, mesmo doente, recebia pessoas que partilhavam seu gosto pela poesia, ao lado da sua discreta e delicada estrela, para quem escreveu:
4 de novembro de 2011
Lúdico e Lúcido
Lições de poesia, de filosofia, de pontos vários, sem a ilusão asfixiante de sentidos fixos, em movimento, à deriva, movimento contínuo em direção sem direção, busca da terceira margem, convite ao trânsito, sem âncoras ou porto.
30 de outubro de 2011
Das raízes para as rotas
Autor de livros como A cidade polifônica e Culturas eXtremas (cuja indicação devo a Gláucia Machado), Canevacci lançou ontem Fake in China, um relato superficial, como ele mesmo o descreve, da sua permanência de seis meses como professor em uma universidade privada chinesa. O título é referência e homenagem ao clássico filme de Orson Welles, F for fake.
Sua palestra começou às 20h30, em um espaço muito barulhento, mas, apesar das condições ambientais adversas, foi maravilhoso ouvir alguém que se pauta pela experimentação em suas pesquisas; alguém que pesquisa principalmente modos de pesquisar produções simbólicas que problematizam radicalmente os consagrados/congelados modelos acadêmicos. Um pesquisador em busca de novas rotas, que propõe aos que o ouvem não que o sigam, mas que empreendam também essa busca marcada pela deriva, pela errância.
Vale ainda lembrar que foi Sheila Canevacci, bailarina e pesquisadora, casada com Massimo, que desmontou a farsa de Mônica Serra, nas eleições acerca do aborto, ao dizer no Facebook que ficou chocada com a hipocrisia de Mônica, uma vez que a esposa do então candidato a presidente já havia partilhado em sala de aula na Unicamp, em que Sheila era aluna, a sua dolorosa experiência.
Um trecho de uma das muitas entrevistas de Canevacci (feita por Julia Aguiar, no Overmundo, que pode ser lida integralmente aqui):
No livro, A Cidade Polifônica, o senhor comenta a necessidade d’a gente entender “os valores e modelos de comportamento que a cidade inventa”. Você poderia explicar.
A cidade para mim é como se fosse um organismo subjetivo, vital, que absorve como uma esponja o que acontece e elabora a sua própria linguagem. Esse tipo de linguagem que a cidade, especialmente a área metropolitana elabora, influencia profundamente um tipo de comportamento das pessoas que moram nessa área metropolitana. Por isso, poderia se dizer que a linguagem da metrópole é baseada sobre lugares, espaços, e principalmente sobre interstícios, isto é, interstício, um espaço que está in between, que está entre, um espaço conhecido e um desconhecido. Esses interstícios, favorecem um tipo de linguagem, que é dialogicamente interlaçado com a linguagem do corpo. E a linguagem do corpo de cada pessoa, para mim, é muito diferenciada culturalmente e comunicacionalmente, mais que sociologicamente. Isto é, é mais uma auto-percepção comunicacional que diferencia essas pessoas que uma diferenciação sociológica. Esse tipo de diferenciação, baseada sobre um tipo de linguagem do corpo e o tipo de linguagem dos interstícios, favorece uma dialógica nova, baseada muito na hibridização e em sincretismos culturais, e sobre extrema mobilidade e fluidez. Essa mobilidade, fluidez e hibridização, é parte da experiência cultural, corporal, e também urbanística, da metrópole contemporânea.
28 de setembro de 2011
Escrita não criativa e Bordado político
Dica, sempre bacana, de Tazio Zambi, nesta manhã nublada de quarta-feira.
19 de setembro de 2011
A voz de Borges
O UBU, o portal da alegria em suas linguagens mais experimentais e surpreendentes, traz agora a voz de Borges, apresentando suas belas palestras proferidas na universidade de Harvard. Elas fazem parte do projeto Norton lectures, instituído na década de 1920, que visa estimular a reflexão sobre "poetry in the broadest sense" (poesia em sentido amplo). T.S. Eliot, e.e. cummings, John Cage, Umberto Eco, Octavio Paz, entre outros, também participaram desse projeto.
Borges esteve lá entre 1967-68. As suas palestras foram depois publicadas no livro maravilhoso Esse ofício do verso (Cia. das Letras, 2000).
Aqui, no UBU, a voz de Borges, em inglês. É comovente.
Abaixo a primeira parte da última conferência que ele fez, em espanhol.
27 de agosto de 2011
Volta
Agora volto ao blog e ao tema porque esta semana participei mais uma vez da formatura do curso de letras. E sempre fico pensando em tudo que vivi e vivo na área. O dois perigos que tento evitar, por mim e pelos outros: 1. a cela de aula, em que o autoritarismo planta o medo e paralisa qualquer possibilidade de experimentar e inventar o que estudamos; e 2. a sonífera aula, em que o medo é substituído pelo tédio e é também Medusa que petrifica. Prefiro as sandálias de Perseu, que nos levam para outros ângulos e nos tornam mais leves.
Encontrei dois vídeos interessantes sobre o tema, hoje, quando ainda estou sob o efeito (bom e ruim) desta semana e desses anos de docência. São curtos, divertidos, instigantes, como penso devem ser as melhores aulas, ou seja, são pouco parecidos com o estereótipo de aula e escola que conhecemos.
27 de julho de 2011
Acesso ao livro no Brasil
2 de julho de 2011
Contra o monopólio da informação no Brasil
29 de junho de 2011
Ao Maior
20 de junho de 2011
Em Belo Horizonte

19 de junho de 2011
Com nostalgia
15 de junho de 2011
Celebridade
13 de junho de 2011
Santo Antônio

13 de junho, dia de celebrar Santo Antônio, um dos mais populares santos do Brasil. Em muitas cidades brasileiras, hoje, tem procissão, missa, festa. Fernando Pessoa era Fernando Antônio por ter nascido no dia desse santo português que pertencia à ordem dos franciscanos. Vieira, que também era Antônio, dedicou a esse santo alguns belos sermões.
Aniversário
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
[473]
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
10 de junho de 2011
Pra comemorar
9 de junho de 2011
Humor gráfico
7 de junho de 2011
Poema para Galileu
Escrito pelo poeta português António Gedeão (pseudônimo de Rômulo de Carvalho), para resistirmos à história única, à imposição de um sentido fechado para o mundo múltiplo e diverso. Aqui, podemos ouvir o poeta lendo seu poema.
Poema para Galileu
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!
Olha. Sabes? Lá na Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar – que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma
Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andava a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso, estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão direta dos quadrados dos tempos.
2 de junho de 2011
Um poema
O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento.
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti é a vida.
Bandeira, Manuel, "Madrigal Melancólico", in Poesia Completa e Prosa (Nova Aguilar, 1993).
29 de maio de 2011
Mais mortes anunciadas

José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, ativistas contra o desmatamento no Brasil, foram assassinados este mês no Pará. Eles recorreram várias vezes à polícia, para denunciar as ameaças que recebiam e pedir proteção, que nunca chegou. Há cerca de seis meses, ele havia gravado um depoimento comovente. Para assistir, clique aqui. Para saber mais, aqui
Este episódio triste tem ainda uma página mais deprimente: quando os assassinatos foram anunciados na Câmara dos Deputados, parte da bancada ruralista vaiou. É terrível, absurdo, evoca até um clichê: não tenho palavras para dizer da minha indignação.
25 de maio de 2011
Remixofagia: alegorias de uma revolução
Remixofagia - Alegorias de uma revolução from FLi Multimídia on Vimeo.
Para dançar
Outra delícia: os Novos Baianos cantando o grande Assis Valente:
22 de maio de 2011
Erro de português
debaixo duma bruta chuva
vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
o índio tinha despido
o português
20 de maio de 2011
Educação e diferença
Representantes de associação se reuniram com o ministro da Educação.
Eles querem escola que use linguagem de sinais como principal 'idioma'.
Tiago FalqueiroDo G1, em Brasília
Um grupo de aproximadamente 500 manifestantes protestou em frente ao Ministério da Educação nesta quinta-feira (19) contra a intenção do governo federal de fechar as escolas especiais e incluir os portadores de necessidades especiais, como cegos e surdos, em escolas regulares. Uma comissão formada por dirigentes de associações de deficientes visuais e auditivos foi recebida pelo ministro Fernando Haddad.
Os manifestantes querem a incorporação dos programas de educação inclusiva à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi). Em nota, o MEC disse que "o ministro da Educação, Fernando Haddad não pretende encerrar as atividades de nenhuma instituição ou escola destinada a estudantes com deficiência". Ainda segundo a nota, "o ministro ressaltou que o Brasil é signatário da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU, 2006) e deve ofertar o direito a um sistema educacional inclusivo em todos os níveis. O acordo estabelece o compromisso dos Estados Partes com a adoção de medidas de apoio necessárias no âmbito da educação regular".

Participaram do encontro com Haddad representantes da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), do Instituto Nacional de Educação dos Surdos (Ines) e do Centro de Integração de Arte e Cultura de Surdos (Ciacs).
Em seguida, os manifestantes seguiram para o Congresso Nacional, onde iam se reunir com uma comissão de senadores. Paulo Vieira, presidente da Associação de Surdos de São Paulo, classificou a reunião como "difícil". "Existe um obstáculo muito grande para que eles entendam nossa posição. Não adianta dar um curso de 40 horas de língua de sinais os professores consigam receber alunos surdos e ouvintes na mesma sala", defende.
Nidia Regina Sá, professora da Universidade Federal do Amazonas, que acompanhava o movimento, pede mudanças no Plano Nacional de Educação. Segunda a acadêmica, termos como escola especial foram banidos do documento. "Eles querem transformar as escolas especiais em centros que prestam atendimento especializado, como fonoaudióloga, o que não é suficiente", afirma Nídia.
Para os surdos, os manifestantes defendem que há uma cultura própria, e que a primeira língua deles é Língua Brasileira dos Sinais (Libras). "Precisamos de escolas bilíngues, que ensinem o português a partir da Libras, como um índio, que tem outra língua materna e vai estudar depois", desta Paulo Vieira. O manifestante ainda lembrou para os perigos de se incluir crianças que não estão preparadas para o convívio dentro de uma escola regular.
16 de maio de 2011
Coisas cultivadas
13 de maio de 2011
Para não esquecer
A pobreza e a cor da pobreza
LUIZA BAIRROS, na Folha de S. Paulo, em 13.05.2011
Os negros têm a oferecer suas estratégias de resistência ao racismo, que, desde o período colonial, interpôs obstáculos à afirmação da humanidade
Em “Leite Derramado”, mais recente romance de Chico Buarque, há um personagem que, ao se referir com ironia ao radicalismo de seu avô abolicionista, afirma que ele “queria mandar todos os pretos brasileiros de volta para a África”.
Nessa visão, abolicionismo radical equivalia a se livrar dos negros. De todo modo, após 1888, as elites brasileiras irão se comportar como se os libertos, que as serviram por quase quatro séculos, não estivessem mais aqui. Mas estavam, e por sua própria conta.
No início do século 20, eram frequentes os prognósticos sobre o desaparecimento da população negra, que supostamente não sobreviveria ao século.
Ao mesmo tempo em que se criticavam as soluções de laboratório defendidas pelo ideário eugenista, em voga aqui e em muitos países, também se apostava no embranquecimento via miscigenação.
Mais tarde, ao se debruçar sobre os resultados do Censo de 1940, Guerreiro Ramos considerou “patológico” o desequilíbrio nas respostas ao quesito cor, tendentes, em sua esmagadora maioria, a sobrevalorizar a cor branca.
Na contramão dessa tendência, os dados censitários de 2010, há pouco divulgados, confirmam o que já se delineava no Censo de 2001: iniciativas de valorização da identidade, com origem nos movimentos negros e hoje em processo de institucionalização, asseguraram a maioria negra em uma população que ultrapassa 190 milhões de brasileiros.
Nesse longo percurso de afirmação, as mudanças não se limitaram a uma percepção de si mais positiva, exclusiva dos afro-brasileiros.
A consciência negra avançou em conexão íntima com a consciência social como um todo. Não se trata, portanto, da mera substituição de um segmento populacional dominante por outro, mas do reconhecimento de que os valores do pluralismo ajudam em muito a consolidar nosso processo democrático.
Contudo, ainda persistem dificuldades a serem enfrentadas.
Hoje, temos uma sólida base de dados, que mostra reiteradamente que mulheres e homens negros estão entre os brasileiros mais vulneráveis, numa proporção muito maior do que sua presença relativa na população total.
Por isso, a priorização da erradicação da pobreza extrema pelo governo da presidenta Dilma abre possibilidades inéditas de abordar rica e diversificada experiência humana, que ainda precisa ser considerada em toda a sua amplitude.
O sucesso das iniciativas de combate à pobreza extrema requer a reversão de imagens negativas, a superação de práticas discriminatórias e o redimensionamento dos valores de cultura e civilização que, afinal, contra todas as expectativas, garantiram a continuidade dos descendentes de africanos no país.
Quando o assunto é superação da pobreza extrema, é justo supor que os negros tenham algo a dizer.
Segmentos empobrecidos de outros grupos raciais também o terão, é certo. Mas os negros têm a oferecer suas estratégias de resistência ao racismo, que, desde o período colonial, interpôs obstáculos ideológicos e culturais à afirmação plena de sua humanidade -a base das desigualdades de renda e de oportunidades que ainda vivenciam.
Assim, no atendimento a direitos básicos que articulam renda, acesso a serviços e inclusão produtiva, é preciso tornar visíveis e valorizar dimensões da pessoa e do universo afro-brasileiro que desempenham papel decisivo na conquista da autonomia. Todos somos humanos, e a resistência aos processos desumanizadores do racismo é, de longe, a maior contribuição dos negros à cultura brasileira.
*LUIZA BAIRROS é ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República.