29 de maio de 2011

Mais mortes anunciadas



José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, ativistas contra o desmatamento no Brasil, foram assassinados este mês no Pará. Eles recorreram várias vezes à polícia, para denunciar as ameaças que recebiam e pedir proteção, que nunca chegou. Há cerca de seis meses, ele havia gravado um depoimento comovente. Para assistir, clique aqui. Para saber mais, aqui
Este episódio triste tem ainda uma página mais deprimente: quando os assassinatos foram anunciados na Câmara dos Deputados, parte da bancada ruralista vaiou. É terrível, absurdo, evoca até um clichê: não tenho palavras para dizer da minha indignação.

25 de maio de 2011

Remixofagia: alegorias de uma revolução

Saiu ontem este vídeo assinado por Cláudio Prado, em conjunto com outros militantes sérios da cultura digital. Discutir com criatividade, leveza, consistência, multiplicidade. O que podemos aprender, o que devemos resgatar das conquistas dos últimos anos, no governo Lula, que a atual direção do MinC está destruindo.

Remixofagia - Alegorias de uma revolução from FLi Multimídia on Vimeo.

Para dançar

Luiz Melodia, sempre bom de ver, ouvir, cantar, dançar. Aqui cantando Dama Ideal. Uma delícia.



Outra delícia: os Novos Baianos cantando o grande Assis Valente:

22 de maio de 2011

Erro de português

Oswald de Andrade brincou com essa ideia em um poema muito conhecido:

Erro de português

Quando o português chegou
debaixo duma bruta chuva
vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
o índio tinha despido
o português

Nos últimos dias, vários programas de TV e especialistas nos mais diferentes assuntos (quase sempre não em Língua Portuguesa ou Linguística) estão discutindo o caso do livro didático aprovado pelo MEC com "erro de português". O que mais me incomoda e impressiona nessas discussões é a construção da imagem de uma elite erudita, que falaria um português culto em oposição aos pobres, que, por falta de acesso a boas escolas, não dominariam essa outra língua, a correta. Mesmo os mais bem intencionados (e também os mal intencionados) tratam disso como se fosse óbvio, certo, e sempre defendendo que cabe à escola levar os estudantes a dominar essa norma culta. Não sei onde estariam essas pessoas, essa elite da língua, não sei onde é falada essa língua culta, antes uma ficção.

A exposição do Museu da Língua Portuguesa "O certo do errado e o errado do certo" (2010) ajuda muito a desfazer essa miragem, essa construção de um falar (ou escrever) elitista, que ergueria uma barreira nítida entre ricos e pobres. Não vejo, leio ou ouço essa língua por onde ando, seja na universidade pública, seja na privada, seja em colégios caros, seja em escolas públicas. A mídia está diariamente desmentindo essa ideia, é só ouvir os jornalistas falando ou observar as propagandas, mesmo de produtos caros, em tese, dirigidos a um público "culto" porque rico.

Por que não assumir que a língua é mais complexa do que essa separação de classes, de elite e dominados, de ricos e pobres? O tal manual didático, simplista, falho e autoritário como quase todos, não diz que o "erro" é certo, apenas admite em suas páginas outros falares e outras escritas que circulam diariamente em nosso cotidiano, sejamos da elite ou não. Qualquer falante de uma língua tem uma relação múltipla com suas possibilidades.

Parece mesmo que todos esses que emitem opiniões baseadas nessas dicotomias comentem o erro do português do poema oswaldiano, chegam sempre no dia de chuva e vestem a língua com suas camisas de força e seus uniformes sisudos. Mais uma vez Oswald: "A contribuição milionária de todos os erros".

20 de maio de 2011

Educação e diferença

Reproduzo parte da matéria que saiu no G1 (para ler a matéria toda, é só clicar aqui) sobre manifestação do movimento de surdos por maior e melhor acesso à educação. Quem me mandou um link foi Magda Souto, uma querida prima que, a despeito da impossíbilidade de ouvir, já concluiu dois cursos, Pedagogia e Letras -Libras. Mas se trata ainda, infelizmente, de uma exceção, pois a maioria dos surdos, às vezes, não consegue sequer terminar o ensino médio, o que dificulta, quando não impede, a entrada no mercado de trabalho.


Manifestantes defendem educação especial pata deficientes auditivos

Representantes de associação se reuniram com o ministro da Educação.
Eles querem escola que use linguagem de sinais como principal 'idioma'.

Tiago FalqueiroDo G1, em Brasília

Um grupo de aproximadamente 500 manifestantes protestou em frente ao Ministério da Educação nesta quinta-feira (19) contra a intenção do governo federal de fechar as escolas especiais e incluir os portadores de necessidades especiais, como cegos e surdos, em escolas regulares. Uma comissão formada por dirigentes de associações de deficientes visuais e auditivos foi recebida pelo ministro Fernando Haddad.

Os manifestantes querem a incorporação dos programas de educação inclusiva à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi). Em nota, o MEC disse que "o ministro da Educação, Fernando Haddad não pretende encerrar as atividades de nenhuma instituição ou escola destinada a estudantes com deficiência". Ainda segundo a nota, "o ministro ressaltou que o Brasil é signatário da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU, 2006) e deve ofertar o direito a um sistema educacional inclusivo em todos os níveis. O acordo estabelece o compromisso dos Estados Partes com a adoção de medidas de apoio necessárias no âmbito da educação regular".

Manifestação em Brasília por educação para portadores de deficiência auditiva (Foto: Wilson Dias/ABr)Manifestação em Brasília por educação para portadores de deficiência auditiva (Foto: Wilson Dias/ABr)

Participaram do encontro com Haddad representantes da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis), do Instituto Nacional de Educação dos Surdos (Ines) e do Centro de Integração de Arte e Cultura de Surdos (Ciacs).

Em seguida, os manifestantes seguiram para o Congresso Nacional, onde iam se reunir com uma comissão de senadores. Paulo Vieira, presidente da Associação de Surdos de São Paulo, classificou a reunião como "difícil". "Existe um obstáculo muito grande para que eles entendam nossa posição. Não adianta dar um curso de 40 horas de língua de sinais os professores consigam receber alunos surdos e ouvintes na mesma sala", defende.

Nidia Regina Sá, professora da Universidade Federal do Amazonas, que acompanhava o movimento, pede mudanças no Plano Nacional de Educação. Segunda a acadêmica, termos como escola especial foram banidos do documento. "Eles querem transformar as escolas especiais em centros que prestam atendimento especializado, como fonoaudióloga, o que não é suficiente", afirma Nídia.

Para os surdos, os manifestantes defendem que há uma cultura própria, e que a primeira língua deles é Língua Brasileira dos Sinais (Libras). "Precisamos de escolas bilíngues, que ensinem o português a partir da Libras, como um índio, que tem outra língua materna e vai estudar depois", desta Paulo Vieira. O manifestante ainda lembrou para os perigos de se incluir crianças que não estão preparadas para o convívio dentro de uma escola regular.

16 de maio de 2011

Coisas cultivadas


Cultivar e costurar são verbos divertidos. Aqui em casa, costurar é trabalho de feriado e fim de semana, quando possível. Todo dia é dia de cultivar. De manhã, sempre, uma passeio rápido pelo jardim, para mantê-lo alegrando a casa, com suas cores e sabores.








Dessas atividades, duas fotos: a orquídea e a blusa que fiz para Ondina, em seu aniversário.

13 de maio de 2011

Para não esquecer

Reproduzo abaixo um texto de Luiza Bairros, ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República.

A pobreza e a cor da pobreza

LUIZA BAIRROS, na Folha de S. Paulo, em 13.05.2011

Os negros têm a oferecer suas estratégias de resistência ao racismo, que, desde o período colonial, interpôs obstáculos à afirmação da humanidade

Em “Leite Derramado”, mais recente romance de Chico Buarque, há um personagem que, ao se referir com ironia ao radicalismo de seu avô abolicionista, afirma que ele “queria mandar todos os pretos brasileiros de volta para a África”.

Nessa visão, abolicionismo radical equivalia a se livrar dos negros. De todo modo, após 1888, as elites brasileiras irão se comportar como se os libertos, que as serviram por quase quatro séculos, não estivessem mais aqui. Mas estavam, e por sua própria conta.

No início do século 20, eram frequentes os prognósticos sobre o desaparecimento da população negra, que supostamente não sobreviveria ao século.

Ao mesmo tempo em que se criticavam as soluções de laboratório defendidas pelo ideário eugenista, em voga aqui e em muitos países, também se apostava no embranquecimento via miscigenação.

Mais tarde, ao se debruçar sobre os resultados do Censo de 1940, Guerreiro Ramos considerou “patológico” o desequilíbrio nas respostas ao quesito cor, tendentes, em sua esmagadora maioria, a sobrevalorizar a cor branca.

Na contramão dessa tendência, os dados censitários de 2010, há pouco divulgados, confirmam o que já se delineava no Censo de 2001: iniciativas de valorização da identidade, com origem nos movimentos negros e hoje em processo de institucionalização, asseguraram a maioria negra em uma população que ultrapassa 190 milhões de brasileiros.

Nesse longo percurso de afirmação, as mudanças não se limitaram a uma percepção de si mais positiva, exclusiva dos afro-brasileiros.

A consciência negra avançou em conexão íntima com a consciência social como um todo. Não se trata, portanto, da mera substituição de um segmento populacional dominante por outro, mas do reconhecimento de que os valores do pluralismo ajudam em muito a consolidar nosso processo democrático.

Contudo, ainda persistem dificuldades a serem enfrentadas.

Hoje, temos uma sólida base de dados, que mostra reiteradamente que mulheres e homens negros estão entre os brasileiros mais vulneráveis, numa proporção muito maior do que sua presença relativa na população total.

Por isso, a priorização da erradicação da pobreza extrema pelo governo da presidenta Dilma abre possibilidades inéditas de abordar rica e diversificada experiência humana, que ainda precisa ser considerada em toda a sua amplitude.

O sucesso das iniciativas de combate à pobreza extrema requer a reversão de imagens negativas, a superação de práticas discriminatórias e o redimensionamento dos valores de cultura e civilização que, afinal, contra todas as expectativas, garantiram a continuidade dos descendentes de africanos no país.

Quando o assunto é superação da pobreza extrema, é justo supor que os negros tenham algo a dizer.

Segmentos empobrecidos de outros grupos raciais também o terão, é certo. Mas os negros têm a oferecer suas estratégias de resistência ao racismo, que, desde o período colonial, interpôs obstáculos ideológicos e culturais à afirmação plena de sua humanidade -a base das desigualdades de renda e de oportunidades que ainda vivenciam.

Assim, no atendimento a direitos básicos que articulam renda, acesso a serviços e inclusão produtiva, é preciso tornar visíveis e valorizar dimensões da pessoa e do universo afro-brasileiro que desempenham papel decisivo na conquista da autonomia. Todos somos humanos, e a resistência aos processos desumanizadores do racismo é, de longe, a maior contribuição dos negros à cultura brasileira.

*LUIZA BAIRROS é ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República.

7 de maio de 2011

Contra a Homofobia

Tirar a diferença do lugar da patologia amplia a nossa liberdade, nos faz pensar naquilo que nos aproxima. A aprovação quinta-feira da união homoafetiva, no Supremo Tribunal Federal, merece ser divulgada e comemorada. O Estado finalmente reconhece a liberdade de escolha de parceiros com quem compartilhamos a vida e o patrimônio, fruto de um trabalho conjunto. Muitos lutaram por isso, sofreram na pele violências cotidianas, na rua, no trabalho, na família.

Para comemorar, um poema de Glauco Mattoso, que luta contra a homofobia, em diversas frentes:

594 ENTREVISTADO

-- Por que você só faz soneto agora?
-- Porque não vou deixar para mais tarde.
-- Algum provável prêmio que o aguarde?
-- Primeiro. Mas só quando eu for embora.

-- Cegueira é o mal maior que você chora?
-- Se não chorasse eu era mais covarde.
-- Por que só lambe um tênis quando encarde?
-- Porque para limpá-lo mais demora.

-- Quem vê como maior poeta vivo?
-- Alguém com mais de oitenta e que inda rime.
-- Na cama é mais ativo ou mais passivo?

-- Sou mais é reflexivo, pois fodi-me.
-- Poema é melhor livre ou construtivo?
-- Melhor é se constrói, liberta e exprime.