29 de junho de 2011

Ao Maior


No dia de São Pedro, há 60 anos, nasceu Glauco Mattoso (que na certidão é Pedro, em homenagem ao santo do dia), genial poeta, ensaísta, contista, romancista, tradutor... Em todos esses anos de produção surpreendente, Glauco trouxe alegria em diversas formas e suportes para muitos leitores e leitoras.

Conhecer a poesia de Glauco foi e continua sendo uma das grandes aventuras da minha vida de leituras. Conhecer Glauco foi uma das alegrias que continuo comemorando. Para ler (quase) tudo desse escritor inventivo, clique aqui

Que venham muitos outros anos para alegria geral!

20 de junho de 2011

Em Belo Horizonte

Vontade enorme de ir a Belo Horizonte participar da próxima edição do projeto interessantíssimo Sentimentos do Mundo, que reúne no dia 22 de junho, poetas e pesquisadores para celebrar a poesia em suas diversas formas e propostas.
Os poetas Ricardo Aleixo e Marcelo Dolabela estarão no palco.
Serão apresentados por Gláucia Machado.
Encontro de amigos e poetas.
Festa para a poesia.


19 de junho de 2011

Com nostalgia

Ontem, Lucas Santtana, músico baiano, esteve num palco de Maceió, por uns breves momentos. Fomos, Tazio, Duda e eu, ao Maikai, na esperança de assistir a um show bacana. Antes, uma banda de forró, desse forró que chamam (não sei bem o motivo) de universitário. Fumaça por todo lado e a dificuldade de comprar uma bebida, incompreensível em um lugar caro, pois diminui o lucro da casa. Difícil também aguentar até a chegada de Wado e Lucas. Wado mostrou alguns dos últimos e dos antigos sucessos. Depois, finalmente, um pouco (muito pouco) de Lucas Santtana, que fez um disco excelente chamado "Sem nostalgia", com o auxílio luxuoso de Arto Lindsay e de outras parcerias (para saber mais, clique aqui). Ano passado, ele esteve no palco do Rec Beat. Foi um grande prazer ouvi-lo por lá, em condições bem melhores, apesar de o show ter sido em um espaço aberto e fazer parte da programação de um megaevento chamado carnaval. Saudade do profissionalismo do Recife, uma cidade muito mais aberta à arte, um lugar que trata melhor o artista e o público.
Um pouco do trabalho do Lucas para animar este domingo.


15 de junho de 2011

Celebridade

Por que Slavoj Zizek faz tanto sucesso no Brasil? As palestras provocam reações descontroladas, a plateia grita, se exalta. Tudo é tão contrário à ideia de debate de ideias, da busca de compreensão do mundo contemporâneo, complexo, contraditório, movente.
Zizek, dramático, com péssima dicção, cheio de tiques nervosos, sabe como provocar esse frenesi, ele é uma celebridade acadêmica, reconhecida pela classe média universitária em vários lugares do mundo. Suas palestras estão pontuadas de várias afirmações, repetidas à exaustão que têm potencial, pois seguem a sintaxe do discurso de passeata, para se transformar em palavras de ordem. Além disso, os temas são sempre os da moda, agora, a onda ecológica engole tudo, e lixo e luxo se confundem, mesclados aos clichês de sempre. Se o mundo acadêmico tivesse uma revista Caras, ele seria capa várias vezes.Não sei se isso se reflete na venda e leitura dos seus livros. Talvez na venda, que, afinal, é o que importa.
Fico impressionada com a repercussão de sua passagem pelo Brasil. Explica um pouco esse fenômeno o nosso atávico deslumbramento por tudo que é estrangeiro. Ele não fala a nossa língua, o que acentua a aura de que tem algo a nos ensinar, já que as línguas do conhecimento são outras. Vem de um mundo que parece distante, e é autorizado a fornecer modelos de compreensão para o Brasil. Este texto, nos ajuda a entender um pouco melhor esse "radical pop":
http://www.bresserpereira.org.br/Terceiros/2011/11.05.Radical_pop.pdf
Longe de mim alimentar a xenofobia, mas um pouco de atenção ao que é produzido aqui, por intelectuais muito representativos mas menos midiáticos, seria interessante.

13 de junho de 2011

Santo Antônio



13 de junho, dia de celebrar Santo Antônio, um dos mais populares santos do Brasil. Em muitas cidades brasileiras, hoje, tem procissão, missa, festa. Fernando Pessoa era Fernando Antônio por ter nascido no dia desse santo português que pertencia à ordem dos franciscanos. Vieira, que também era Antônio, dedicou a esse santo alguns belos sermões.

"Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam." (Pe. Antonio Vieira. Sermão de Santo Antonio aos peixes, 1654).

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...



10 de junho de 2011

Pra comemorar

Márcia Castro, uma cantora baiana muito bacana, que faz misturas, pois sabe que o Brasil é um mosaico movediço, assim como Nação Zumbi. Eles animam qualquer festa. Por que é sexta-feira. Porque a leveza venceu o mau humor.



9 de junho de 2011

Humor gráfico

Entrevista maravilhosa com Quino, artista argentino, que, entre outras alegrias, nos deu Mafalda. Lição de leveza e crítica inteligente.

7 de junho de 2011

Poema para Galileu

Escrito pelo poeta português António Gedeão (pseudônimo de Rômulo de Carvalho), para resistirmos à história única, à imposição de um sentido fechado para o mundo múltiplo e diverso. Aqui, podemos ouvir o poeta lendo seu poema.

Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios).

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

Olha. Sabes? Lá na Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar – que disparate, Galileu!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando um perigo
para a Humanidade
e para a civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma

Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andava a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão direta dos quadrados dos tempos.

2 de junho de 2011

Um poema

MADRIGAL MELANCÓLICO
--------------------Manuel Bandeira


O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.

A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento.
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti é a vida.


Bandeira, Manuel, "Madrigal Melancólico", in Poesia Completa e Prosa (Nova Aguilar, 1993).