20 de outubro de 2010

Em defesa do Brasil

Professores lançam manifesto em defesa da educação pública

Nomes como Antônio Cândido, Fábio Konder Comparato, Marilena Chauí, Emília Viotti da Costa, Maria Victoria Benevides, Alfredo Bosi e Carlos Nelson Coutinho estão entre os assinantes

Professores universitários, de faculdade públicas e particulares, lançaram um manifesto e ainda estão colhendo assinaturas contra as propostas e os métodos políticos do candidato a presidência da República José Serra. E defendem um sistema educacional que priorize o ensino superior público.

Leia abaixo a íntegra do manifesto:

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.

Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.

Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política de sucateamento da Rede Pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.

Os salários da Rede Pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores qualificados e a desestimular quem decide se manter na Rede Pública. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.

Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.

No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina a difamação, manipulando dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontra paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.

Antonio Candido, USP

Alfredo Bosi, USP

Fábio Konder Comparato, USP

Joel Birman, UFRJ

Carlos Nelson Coutinho, UFRJ

Otávio Velho, UFRJ

Marilena Chaui, USP

Walnice Nogueira Galvão, USP

Renato Ortiz, Unicamp

Laymert Garcia dos Santos, Unicamp

Dermeval Saviani, Unicamp

Laura de Mello e Souza, USP

Maria Odila L. da Silva Dias

Sergio Miceli, USP

Luiz Costa Lima, Uerj

Flora Sussekind, Unirio

João José Reis, UFBA

Ruy Fausto, USP

Franklin Leopoldo e Silva, USP

João Adolfo Hansen, USP

Eduardo Viveiros de Castro, UFRJ

Emilia Viotti da Costa, USP

Newton Bignotto, UFMG

Wander Melo Miranda, UFMG

Juarez Guimarães, UFMG

Heloisa Fernandes, USP

Maria Victoria de Mesquita Benevides, USP

Glauco Arbix, USP

Vera da Silva Telles, USP

Theotonio dos Santos, UFF

Ronaldo Vainfas, UFF

Gilberto Bercovici, USP

Benjamin Abdalla Jr., USP

Enio Candotti, UFRJ

Angela Leite Lopes, UFRJ

Sidney Chalhoub, Unicamp

Arley R. Moreno, Unicamp

Maria Ligia Coelho Prado,USP

Celso F. Favaretto, USP

José Castilho de Marques Neto, Unesp

Emir Sader, Uerj

Scarlett Marton, USP

José Sérgio F. de Carvalho, USP
José Arbex Jr., PUC-SP

Peter Pal Pelbart, PUC- SP

Viviana Bosi, USP

Irene Cardoso, USP

Wolfgang LeoMaar, UFSCar

João Quartim de Moraes, Unicamp

Léon Kossovitch, USP

Vladimir Safatle, USP

Leda Paulani, USP

Ildeu de Castro Moreira, UFRJ

José Ricardo Ramalho, UFRJ

Ivana Bentes, UFRJ

Cibele Saliba Rizek, USP

Afrânio Catani, USP

Sergio Cardoso, USP

Ricardo Musse, USP

Armando Boito, Unicamp

Enid Yatsuda Frederico, Unicamp

Andréia Galvão, Unicamp

Cynthia Sarti, Unifesp

Luiz Roncari, USP

Flavio Aguiar, USP

Iumna Simon, USP

Luis Fernandes, UFRJ

Marcos Dantas, UFRJ

Laura Tavares, UFRJ

Sérgio de Carvalho, USP

Marcos Silva, USP

Alessandro Octaviani, USP

Ligia Chiappini, Universidade Livre de Berlim

Celso Frederico, USP

José Carlos Bruni, USP

José Jeremias de Oliveira Filho, USP

Sebastião Velasco e Cruz, Unicamp

Liliana Segnini, Unicamp

Maria Lygia Quartim de Moraes, Unicamp

Ladislau Dowbor, PUC-SP

Bernardo Ricupero, USP

Adriano Codato, UFPR

Lygia Pupatto, UEL-PR

Henrique Carneiro, USP

Adélia Bezerra de Meneses, Unicamp

Maria Lúcia Montes, USP

Francisco Rüdiger, UFRS

Luís Augusto Fischer, UFRGS

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, PUC-SP

Gil Vicente Reis de Figueiredo, UFSCar

Carlos Ranulfo, UFMG

Paulo Benevides Soares, USP

André Carone, UFScar

Heloisa Buarque de Almeida, USP

Emiliano José, UFBA

Igor Fuser, Faculdade Cásper Líbero

19 de outubro de 2010

Intelectuais e artistas se unem em ato pró-Dilma

agestado

Com a rara presença do cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, que só perdeu em aplausos para o arquiteto Oscar Niemeyer, mais de mil artistas, intelectuais e militantes reuniram-se ontem em um ato em apoio à candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, no Teatro Casa Grande, tradicional ponto de encontro e espetáculos da esquerda carioca, na zona sul do Rio. Os manifestantes entregaram à Dilma um documento com mais de 10 mil assinaturas, muitas delas de eleitores de Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), no primeiro turno.

Chico Buarque fez um rápido pronunciamento com elogios à Dilma e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Essa mulher de fibra, que já passou por tudo, não tem medo de nada. Vai herdar o senso de justiça social, um marco do governo Lula, um governo que não corteja os poderosos de sempre, não despreza os sem-terra, os professores, garis. Um governo que fala de igual para igual com todos, que não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai", disse.

Em seu discurso, Dilma procurou marcar as diferenças de sua candidatura e a de Serra: "Nós não achamos que crescimento social é uma alegoria de mão ou um anexo. É isso que nos distingue radicalmente dos nossos adversários", afirmou. Dilma insistiu no discurso de que os tucanos retomariam o processo de privatização se voltassem ao poder. "O que está em questão nessa eleição é o que eles farão com o pré-sal e também com a Petrobras. Além do manifesto de artistas e intelectuais, a petista recebeu outros dois documentos de apoio à sua candidatura - um organizado por advogados e outro por religiosos.

Publicado em http://br.eleicoes.yahoo.net/noticias/4226/intelectuais-e-artistas-se-unem-em-ato-pr-dilma.html

Nordeste e eleições 2010

O voto do Nordeste

Por Tânia Bacelar Araújo

A ampla vantagem da candidata Dilma Rousseff no primeiro turno no Nordeste reacende o preconceito de parte de nossas elites e da grande mídia face às camadas mais pobres da sociedade brasileira e em especial face ao voto dos nordestinos. Como se a população mais pobre não fosse capaz de compreender a vida política e nela atuar em favor de seus interesses e em defesa de seus direitos. Não “soubesse” votar.

Desta vez, a correlação com os programas de proteção social, em especial o “Bolsa Família” serviu de lastro para essas análises parciais e eivadas de preconceito. E como a maior parte da população pobre do país está no Nordeste, no Norte e nas periferias das grandes cidades (vale lembrar que o Sudeste abriga 25% das famílias atendidas pelo “Bolsa Família”), os “grotões”- como nos tratam tais analistas – teriam avermelhado. Mas os beneficiários destes Programas no Nordeste não são suficientemente numerosos para responder pelos percentuais elevados obtidos por Dilma no primeiro turno : mais de 2/3 dos votos no MA, PI e CE, mais de 50% nos demais estados, e cerca de 60% no total ( contra 20% dados a Serra).

A visão simplista e preconceituosa não consegue dar conta do que se passou nesta região nos anos recentes e que explica a tendência do voto para Governadores, parlamentares e candidatos a Presidente no Nordeste.

A marca importante do Governo Lula foi a retomada gradual de políticas nacionais, valendo destacar que elas foram um dos principais focos do desmonte do Estado nos anos 90. Muitas tiveram como norte o combate às desigualdades sociais e regionais do Brasil. E isso é bom para o Nordeste.

Por outro lado, ao invés da opção estratégica pela “inserção competitiva” do Brasil na globalização – que concentra investimentos nas regiões já mais estruturadas e dinâmicas e que marcou os dois governos do PSDB -, os Governos de Lula optaram pela integração nacional ao fundar a estratégia de crescimento na produção e consumo de massa, o que favoreceu enormemente o Nordeste. Na inserção competitiva, o Nordeste era visto apenas por alguns “clusters” (turismo, fruticultura irrigada, agronegócio graneleiro…) enquanto nos anos recentes a maioria dos seus segmentos produtivos se dinamizaram, fazendo a região ser revisitada pelos empreendedores nacionais e internacionais.

Por seu turno, a estratégia de atacar pelo lado da demanda, com políticas sociais, política de reajuste real elevado do salário mínimo e a de ampliação significativa do crédito, teve impacto muito positivo no Nordeste. A região liderou – junto com o Norte – as vendas no comercio varejista do país entre 2003 e 2009. E o dinamismo do consumo atraiu investimentos para a região. Redes de supermercados, grandes magazines, indústrias alimentares e de bebidas, entre outros, expandiram sua presença no Nordeste ao mesmo tempo em que as pequenas e medias empresas locais ampliavam sua produção.

Além disso, mudanças nas políticas da Petrobras influíram muito na dinâmica econômica regional como a decisão de investir em novas refinarias (uma em construção e mais duas previstas) e em patrocinar – via suas compras – a retomada da indústria naval brasileira, o que levou o Nordeste a captar vários estaleiros.

Igualmente importante foi a política de ampliação dos investimentos em infra-estrutura – foco principal do PAC – que beneficiou o Nordeste com recursos que somados tem peso no total dos investimentos previstos superior a participação do Nordeste na economia nacional. No seu rastro,a construção civil “bombou” na região.

A política de ampliação das Universidades Federais e de expansão da rede de ensino profissional também atingiu favoravelmente o Nordeste, em especial cidades médias de seu interior. Merece destaque ainda a ampliação dos investimentos em C&T que trouxe para Universidades do Nordeste a liderança de Institutos Nacionais – antes fortemente concentrados no Sudeste – dentre os quais se destaca o Instituto de Fármacos ( na UFPE) e o Instituto de Neurociências instalado na região metropolitana de Natal sob a liderança do cientista brasileiro Miguel Nicolelis que organizará uma verdadeira “cidade da ciência” num dos municípios mais pobres do RN ( Macaíba).

Igualmente importante foi quebrar o mito de que a agricultura familiar era inviável. O PRONAF mais que sextuplicou seus investimentos entre 2002 e 2010 e outros programas e instrumentos de política foram criados ( seguro – safra , Programa de Compra de Alimentos, estimulo a compras locais pela Merenda Escolar, entre outros) e o recente Censo Agropecuário mostrou que a agropecuária de base familiar gera 3 em cada 4 empregos rurais do país e responde por quase 40% do valor da produção agrícola nacional. E o Nordeste se beneficiou muito desta política, pois abriga 43% da população economicamente ativa do setor agrícola brasileiro.

Resultado: o Nordeste liderou o crescimento do emprego formal no país com 5,9% de crescimento ao ano entre 2003 e 2009, taxa superior a de 5,4% registrada para o Brasil como um todo, e aos 5,2% do Sudeste, segundo dados da RAIS.

Daí a ampla aprovação do Governo Lula em todos os Estados e nas diversas camadas da sociedade nordestina se refletir na acolhida a Dilma. Não é o voto da submissão – como antes – da desinformação, ou da ignorância. É o voto da auto- confiança recuperada, do reconhecimento do correto direcionamento de políticas estratégicas e da esperança na consolidação de avanços alcançados – alguns ainda insipientes e outros insuficientes. É o voto na aposta de que o Nordeste não é só miséria (e, portanto, “Bolsa Família”), mas uma região plena de potencialidades. 

Textoo publicado em http://www.cartacapital.com.br/politica/o-voto-do-nordeste

17 de outubro de 2010

Para esclarecer

Carta aberta à CNBB: Crime eleitoral

Carta Aberta à CNBB.

São Paulo 17 de outubro de 2010.

Como membro da CJP-SP fui chamado pelo Deputado Estadual Adriano Diogo a registrar o flagrante de crime eleitoral na Editora Gráfica Pana LTDA, que foi contratada pelo Bispo Diocesano de Guarulhos para reproduzir 2,1 milhões de panfletos falsos da CNBB e estava para distribuir, ontem, pelo país 1,1 milhão de cópias do material e fiz estes registros, por ter ciência da orientação de nossa Comissão Brasileira de Justiça e Paz a partir do documento que li, recebido dias atrás sobre a falsificação de panfleto em nome da CNBB.

A encomenda foi realizada a pedido Mitra Diocesana de Guarulhos conforme imagens abaixo, a saber: email de encomenda, cópia do boleto bancário e carta de Dom Luiz Gonzaga Bergonzini ao Pe. Jean Rogers Rodrigo de Souza, solicitando distribuição, que encaminho também anexo para divulgação, uma vez que constituem a documentação probatória da encomenda e do crime eleitoral praticado.

A gráfica iria entregar 2,1 milhões de panfletos, cuja informação fornecida pelo gerente da empresa pego em flagrante, pode variar em sua tiragem de 20 a 50 milhões. Foram apreendidos somente 1 milhão dos panfletos falsos, cuja liminar de apreensão já foi expedida pelo juiz responsável. Isso significa que muitos panfletos podem ter sido feitos em outras gráficas e continuarão a ser distribuído pelo país, caso não haja uma ação efetiva da CNBB.

Penso que nossos Bispos devam considerar, dada a gravidade dos fatos, encaminhar a Nota de Esclarecimento elabora no encontro de Itaici, para ser lida em todas as paróquias, em todas as missas do próximo domingo, sua publicação no Jornal O São Paulo e demais revistas e jornais católicos, bem como a leitura nas Tvs e rádios da igreja, buscando por fim ao assunto.

Recomendo esta atitude para nossos pastores reunidos em Itaici, entendendo ser este um gesto que favorecerá a distensão dos mal-entendidos provocados, visando o amplo esclarecimento dos fiéis que receberam tal documento apócrifo e criminoso, sobre a real posição de nossos bispos do Regional 1 e da CNBB, contribuindo desta forma para serenarmos os conflitos gerados entre os católicos, reafirmando a integridade da CNBB e reforçando a cidadania, a democracia e a livre escolha de todos os brasileiros, tão atingidas com esta manifestação difamatória, que desvirtua o foco do debate que interessa à nação e o sentido das eleições de 2010.

A cisânia que a calúnia, as ofensas e as mentiras imputadas geram entre aos cristãos, por ações como está promovida pelo Bispo Diocesano de Guarulhos, estão explicitadas de forma dramática nos fatos que ocorreram hoje em Canindé, no Ceará, onde a missa acabou em TUMULTO, uma vez que o padre corretamente, informou aos presentes que o documento que estava sendo distribuído na missa era falso e acabou sendo atacado por um político, durante a celebração. Pergunto aos nossos Bispos da CNBB; quando na igreja uma missa tão tradicional como a de Canindé, acabou desta maneira? Os fatos demonstram a gravidade do momento e a tentativa de aparelhamento do sentimento religioso em nosso país, conforme nota publicada pla CNBB.

Faz-nos refletir a justeza das palavras da candidata Dilma Rousseff, divulgadas na imprensa recentemente, sobre a campanha de ódio que estas ações subterrâneas estão gerando nos corações e mentes dos brasileiros por todo nosso país. Isso pode ficar mais grave ainda, se não for feita uma ampla campanha de esclarecimento junto aos fiéis. A CNBB e o país tem muito a perder com isso. É preciso por um basta a esta campanha baseada na mentira, na calúnia, na difamação!

Só a Verdade nos libertará.

Atenciosamente:

Marcelo Zelic

Vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-SP e membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo
Coordenador do Projeto Armazém Memória

14 de outubro de 2010

Em defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade

Veja abaixo o resumo do Manifesto Filósofos Pró-Dilma.

Entre os signatários do manifesto encontram-se Oswaldo Porchat Pereira, Marillena Chauí, Wolfgang Leo Maar, Guido Antônio de Almeida, Raul Landim Filho, Andrea Loparic, Manfredo Araújo de Oliveira, Jacyntho Lins Brandão, João Quartim de Moraes, Luiz Roberto Monzani, Virginia de Araujo Figueiredo, Scarlett Marton, Vladimir Pinheiro Safatle, Newton Bignotto, João Vergílio Gallerani Cuter, Ernesto Perini Santos, Paulo Francisco Estrella Faria, Roberto Horácio de Sá Pereira, Robson Ramos dos Reis, Ethel Menezes Rocha, Alfredo Carlos Storck, Vinicius de Figueiredo.

Versão resumida

Professores e pesquisadores de Filosofia, abaixo assinados, manifestamos nosso apoio à candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Seguem-se nossas razões.

Os oito anos de governo Lula constituíram um formidável movimento na direção da construção de uma sociedade livre, justa e solidária, por meio da redução das desigualdades sociais e regionais e da luta pela erradicação da pobreza, objetivos expressos na Constituição da República Federativa do Brasil. Nesses oito anos, a pobreza foi reduzida em mais de 40%; mais de 30 milhões de brasileiros ascenderam à classe média; a desigualdade de renda sofreu uma queda palpável. Tais políticas assinalam o compromisso do governo Lula com a realização dos objetivos de nossa República. Como ministra, Dilma Rousseff exerceu um papel central no sucesso dessa gestão. Cremos que sua chegada à Presidência representará a continuidade, aprofundamento e aperfeiçoamento do combate à pobreza e à desigualdade que marcou os últimos oito anos.

Há razões para duvidar que um eventual governo José Serra ofereça os mesmos prospectos. É notório o desprezo com que os programas sociais do atual governo – em particular o Bolsa Família – foram inicialmente recebidos pelos atores da coligação que sustenta o candidato. Frente ao sucesso de tais programas, José Serra vem agora verbalizar sua adesão a eles, quando não arroga para si sua primeira concepção. Não tendo ainda, passado o primeiro turno, apresentado um programa de governo, ele nos lança toda sorte de promessas – algumas das quais em franco contraste com sua gestão como governador de São Paulo – sem esclarecer como concretizá-las. O caráter errático de sua campanha justifica ceticismo quanto à consistência de seus compromissos. Seu discurso pautado por conveniências eleitorais indica aversão à responsabilidade que se espera de nossos representantes.

A cidadania exige o que Kant caracterizou como independência: o cidadão deve ser “seu próprio senhor”, por conseguinte possuir “alguma propriedade (e qualquer habilidade, ofício, arte ou ciência pode contar como propriedade) que lhe possibilite o sustento”. Os programas de transferência de renda implementados pelo governo não apenas ajudaram a proteger o país da crise econômica mundial – por induzirem o crescimento do mercado interno –, mas fortaleceram nossa democracia ao criar bases concretas para a cidadania de milhões de brasileiros. Se atentarmos ao seu formato institucional, veremos que eles proporcionam condições para a progressiva autonomia de seus beneficiários, ao invés de prendê-los em um círculo de dependência. Que mulheres e homens beneficiados por tais programas confiram seus votos às forças que lutaram por implementá-los não deve surpreender ninguém – trata-se, afinal, da lógica mesma da governança democrática.

Compromisso com a expansão e qualificação da universidade

Durante os oito anos do governo anterior, não se criou uma nova universidade federal sequer; os equipamentos das universidades federais viram-se em vergonhosa penúria; as verbas de pesquisa estiveram constantemente à mercê de contingenciamentos; o arrocho salarial, aliado à falta de perspectivas e reconhecimento, favoreceu a aposentadoria precoce de inúmeros docentes, sem a realização de concursos públicos para a reposição satisfatória de professores. O consórcio partidário que cerca a candidatura José Serra – o mesmo que deu guarida ao governo anterior – deve explicar por que e como não reeditará essa situação.

O atual governo tem agido não apenas para a recuperação do ensino superior e da pesquisa universitária, após anos de sucateamento, como tem implementado políticas para sua expansão e qualificação – com resultados já reconhecidos pela comunidade científica internacional. O PROUNI – atacado por um dos partidos da coligação de José Serra – possibilitou o acesso à universidade para mais de 700.000 brasileiros de baixa renda. Através do REUNI, as universidades federais têm assistido a um grande crescimento na infraestrutura e na contratação, mediante concurso público, de docentes qualificados. Programas de fomento, levados a cabo pelo CNPq e pela CAPES, têm proporcionado um sensível aumento da pesquisa em ciência e tecnologia, premissa central para o desenvolvimento do país. Foram criadas 14 novas universidades federais, testemunhando-se a interiorização do ensino superior no Brasil, levando o conhecimento às regiões mais pobres, menos desenvolvidas e mais necessitadas de apoio do Estado.

Em defesa do Estado laico e do respeito à diversidade de orientações espirituais

A Constituição Federal é clara na afirmação do caráter laico do Estado brasileiro. É garantida aos cidadãos brasileiros a liberdade de crença e consciência, não se admitindo que identidades religiosas se imponham como condição do exercício de direitos e do respeito à dignidade fundamental de cada um. É, pois, com preocupação que testemunhamos a instrumentalização do discurso religioso na presente corrida presidencial.

Em particular, deploramos a guarida de templos ao proselitismo a favor ou contra esta ou aquela candidatura – em clara afronta à legislação eleitoral. Dilma Rousseff, em particular, tem sido alvo de campanha difamatória baseada em ilações sobre suas convicções espirituais e na deliberada distorção das posições do atual governo sobre o aborto e a liberdade de manifestação religiosa. Conclamamos ambos os candidatos ora em disputa a não cederem às intimidações dos intolerantes. Temos confiança de que um eventual governo Dilma Rousseff preservará o caráter laico do Estado brasileiro e conduzirá adequadamente a discussão de temas que, embora sensíveis a religiosidades particulares, são de notório interesse público.

Por essas razões, apoiamos a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Para o povo brasileiro continuar em sua jornada de reencontro consigo mesmo. Para o Brasil continuar mudando!


Para ler o texto integral, clique aqui

5 de outubro de 2010

Política & poesia

A poesia nos convida a sair da fixidez, a pensar contra o que parece óbvio, a repensar o que parece óbvio, de outros lugares, descobrindo novas possibilidades de reflexão.
O Brasil hoje vive uma disputa de dois projetos. Para escolher é preciso conhecer, ao menos, a sua história recente: o que houve nos dois governos do PT e o que aconteceu, nos campos estratégicos, nos dois governos do PSDB, bem como dos seus parceiros:o que é Alagoas com o governo do PSDB? O que é Pernambuco depois do governo do PSB, que apoia Dilma? Como está Sergipe, depois do governo do PT? O que é São Paulo do PSDB e como estão os estados governados pelo DEM (antigo PFL), vice do canditado do PSDB? Mas essa pesquisa não pode ser orientada apenas pela visão dos monopólios de comunicação no Brasil, aos quais estão diretamente ligados Veja, Istoé, Época, Jornal Nacional. Esses veículos tentam passar a imagem de que representam a visão da sociedade brasileira. No entanto, é bom lembrar que eles são empresas, e representam, na verdade, os interesses dos seus grupos proprietários, claro, como qualquer empresa; não são neutros, como nada é, aliás. Para que uma análise mais criteriosa seja feita, é fundamental o confronto de pontos de vista e do conhecimento de dados importantes sobre educação pública (que envolve concursos, bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado...), saúde pública, distribuição de renda. Em uma sociedade de longa história escravagista, qualquer proposta que vise melhorar a vida da maioria da população é execrada por aqueles que temem perder seus privilégios.
Uma pequena e autoritária elite controla o que circula na mídia, em quase toda ela, mas não em toda e, muitas vezes, os distraídos só repetem essa visão, de modo acrítico, na internet, sem nenhum amparo em textos de história econômica, política, cultural do Brasil. Espero que a reflexão seja possível, que não vença o medo e o constrangimento de pensar de modo diferente daqueles que querem que o Brasil seja apenas o lugar em que uma parcela mínima usufrui de riquezas imensas, enquanto a maioria sequer pode comer e viver em condições dignas. É sempre bom ouvir a poesia:

Congresso Internacional do Medo
Carlos Drummond de Andrade

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.

Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


    Mãos dadas

Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


3 de outubro de 2010

Rima & solução: devorações de sons e sentidos


No vasto mundo mundo da poesia brasileira, há muitos modos de rimar. Emicida sabe disso:

"Se eu cair vai ser rimando,
me levantar vai ser rimando
No comando, nunca vou a mando de ninguém.
Observando, batalhando perdendo ganhando
E se eu continuar na merda vai ser rimando também"

Esse rapper paulistano tece seus poemas com mútliplas referências e muito humor: seu modo de olhar para o mundo com olhos livres. O nome é uma brincadeira com a palavra homicida, já que, nos desafios entre MC's, nas rinhas, ele sempre "matava" os adversários, daí não ser mais MC, mas Emicida.

Ouça "Vai ser rimando", antes de sair para eleger Dilma e permitir que o projeto inaugurado por Lula possa continuar, contra a oposição ferrenha da Globo e de outros monopólios de comunicação no País.



Corre as areias da ampulheta e nada, alem do amor maior
cada degrau na escada onde eu derramei o meu suor
Avesso as banalidade aonde os moleque se entope
e se não for por isso então não sei pra que serve o
hip hop
Faz mulher tremer pique perva do vem-nenen
mas me fez esquecer a fome e botar fé de que eu ia
ser alguém
nego vislumbra ganha a dimensão da treta a responsa
de mudar o mundo com a ponta de uma caneta
duplo deck varias casset estala tipo coruja pela
track vara a madruga atrás da rima mais suja
verdadeiro a provar que não tô omisso
pra por no radio e dizer ?tava faltando isso?
momento faz a vida a vida faz meus rap, caso
contrario é mentira boiando entre bumbo e clap no
teste, alma, família eu valorizo aqui...existe 2 verdades
1 é a morte a outra é que :

Se eu cair vai ser rimando, me levantar vai ser
rimando
No comando, nunca vo a mando de ninguém.
Observando, batalhando perdendo ganhando
E se eu continuar na merda vai ser rimando também (2x)

Os cara cobra ? E ai tiu,cadê o disco com os rap?
Eu tento explicar que o bagulho é mais que ir pro
estúdio da rec
minhas rima tão na rua ai, e por enquanto é o
seguinte
se não chegou ao seu ouvido não é pra você ser
ouvinte

curto as produça caseira
mas não as de qualquer jeito
não sei porque assimilaram o underground ao mal feito

meus bagulho é de coração demora mais, pra quando
vagabundo ouvir essa porra cair pra traz
Consegui dispor meu sentimento em cada batida
Fazer valer pra quando alguém gritar:
barulho pro emicida
Minha vida cada verso dos alegre é o mais triste
Se fosse só cantar eu cantava as que já existe
Quando se pega o Mike tem que ter algo a dizer, o
lugar de quem não pensa assim é no karaokê
Acho dahora observar os caras que faz por moda,pois
isso sempre me mostra o quanto os verdadeiro é foda

Se eu cair vai ser rimando, me levantar vai ser
rimando
No comando, nunca vo a mando de ninguém.
Observando, batalhando perdendo ganhando
E se eu continuar na merda vai ser rimando também (2x)

A rua é nois? mais do que um erro de gramática,
é a frase que sintetiza a brisa do sujo na pratica
a última esperança de quem não crê em mais nada
vaga sozinho como itogami na beira da estrada
liberdade é condicional assistida em todos os nível
por isso me esforço pra ser o mais livre possível
se nois cega com um olho os repórter que vem pra
aluga
ano que vem tem 4 loira dançando no nosso lugar
joga lavagem pros porcos eles comem até explodir
a cota deles é tentar e a nossa era cair
abraça, que a mídia quer a vitória pra favela
abraça que as pretas vão ser vistas como bela
na tela os patrão segrega discrimina e da ânsia
comprova estereotipo pra afirma a distancia
diz que idealismo morreu foda-se quem se vendeu
sigo assim nem que no fim eu grite
A rua sou eu

Se eu cair vai ser rimando, me levantar vai ser
rimando
No comando, nunca vo a mando de ninguém.
Observando, batalhando perdendo ganhando
E se eu continuar na merda vai ser rimando também (2x)